Nutrição Materno-Infantil

Vitamina D e Gestação

A associação entre os níveis plasmáticos de vitamina D e os desfechos do ciclo gravídico são bem documentados na literatura científica. Essa vitamina lipossolúvel é sintetizada pelos seres humanos, sob condições adequadas, por um processo que se inicia com a oxidação do colesterol da dieta no intestino, formando o 7-dehidroepicolesterol, que carregado pela corrente sanguínea até a pele é convertido, sob efeito da radiação ultravioleta B solar (UVB) de forma não enzimática, em colecalciferol e, cerca de 90% do total de vitamina D no organismo se deve a essa via de síntese.

O feto é dependente da mãe para adquirir vitamina D, pois essa atravessa a placenta e no primeiro trimestre começa acumulando  cerca de 2-3 mg/dia de cálcio no esqueleto e essa reserva dobra no último trimestre. Assim, a gestante se adapta às necessidades fetais e aumenta a absorção de cálcio no início da gravidez, atingindo um nível máximo no último trimestre. A transferência é contra balança pelo aumento da absorção intestinal e redução da excreção urinária de cálcio.

Essa vitamina está intimamente relacionada a homeostase do mineral cálcio e a manutenção do tecido ósseo. Além da saúde óssea, a vitamina D regula os principais genes associados à adequada implantação da placenta e gestantes que apresentam deficiência dessa vitamina tem um aumento na síntese de citocinas pró- inflamatórias, como TNF-alfa e IL-6 e esse quadro pode favorecer a diabetes gestacional, pré-eclâmpsia.

Para acompanhamento dos níveis séricos de vitamina D, é importante lembrarmos que essa tem meia vida de 2 a 3 semanas, e a forma circulante, inerte, considerado o biomarcador de status de vitamina D é o 25 (OH)D3 (calcidiol) é ativado no fígado pela ação da enzima 25- hidroxilase (enzima da classe de citocromo, dependente de ferro e magnésio. E que após essa etapa, há captação pelos rins, cuja enzima 1-alfa-hidroxilase dependente do hormônio PTH, incorpora um segundo grupamento OH, no primeiro carbono, formando o metabólito ativo da vitamina D (calcitriol ou 1,25(OH)2 D3). Outros tecidos que também possuem essa enzima ativam a vitamina D, tais como glândulas paratireoides, mamas, intestino, próstata, pulmão, monócitos, pâncreas, queratinócitos e placenta.

Essa vitamina é recrutada ainda no funcionamento adequado da tireoide, estimulando a ação das células beta pancreáticas e consequentemente a síntese e secreção da insulina, estimulam a diferenciação de linfócitos T CD4 em Linfócitos T regulatórios, que são capazes de produzir interleucinas menos inflamatórias (IL-10 e TGF- β) – melhorando a tolerância imunológica e imunossupressão.

Assim, quando não há hipovitaminose D prevenimos que a gestante desenvolva alterações metabólicas, favorecemos a adequada fecundação, reduzimos o risco de abortamento, nascimento de bebês pequenos para a idade gestacional, partos prematuros, vaginose bacteriana, raquitismo congênito, doenças alérgicas, asma pós nascimento e desenvolvimento cerebral alterado.

O nascimento de bebês de mães que receberam suporte de vitamina D durante a gestação demonstra melhores resultados em relação a parâmetros como crescimento ao nascer, comprimento, circunferência cefálica e circunferência torácica.

Devemos acompanhar os resultados dos exames laboratoriais de nossas pacientes gestantes, e a literatura científica indica que os níveis plasmáticos de vitamina D em gestantes devem estar superiores a 50nmol/L (ou 20ng/mL).

Segundo o Institute of Medicine, as recomendações de consumo alimentar de vitamina D por gestantes é de 10µg/dia. Já em relação a suplementação as recomendações da Canadian Academy of Pediatrics e American College of Obstetricians and Gynecologists recomendam respectivamente a suplementação de 2.000 UI /dia durante a gestação e lactação. Estudos recentes indicam que a suplementação até 4.000UI por dia em gestantes não levou a relatos de hipercalcemia ou hipercalciúria. Em relação a toxicidade por suplementação, o risco pode ocorrer acima de 20.000UI por dia e pode levar a hipercalcemia e hipercalciúria.

Além da exposição solar e do consumo alimentar, alguns outros fatores que reduzem a síntese dessa vitamina devem ser considerados por nós, nutricionistas no momento da montagem do plano alimentar e prescrição da suplementação, fatores como: uso de protetor solar com fator de proteção 30 reduz em 95% a produção; peles com lesão por queimaduras; nebulosidade e contaminação atmosférica; estação do ano, hora do dia, pele com tons mais escuros necessitam de mais tempo de exposição ao sol. 

É nosso papel como educadores da saúde ressaltar que apenas 18% da superfície corporal, área equivalente a braços e pernas, exposta à luz solar por pelo menos 15 minutos diariamente já é suficiente para garantir a síntese adequada de vitamina D3 (*pode haver variação de acordo com a latitude, estação do ano, cor da pele, utilização de filtro solar e influência cultural, religiosa e da dieta). E que a exposição contínua à luz solar também acarreta fotodegradação da pré vitamina D3, assim há uma proteção contra a superprodução, de forma que a exposição excessiva ao sol não causa toxicidade sistêmica induzida pela vitamina D.

Assim, além de todo o planejamento alimentar e acompanhamento de exames laboratoriais é muito importante incentivarmos a exposição solar em um pequeno momento do dia.

Referências

MARQUES, Natália; SERPA, Fernanda; TEIXEIRA, Michelle. Nutrição Clínica Funcional: da fertilidade à gestação. São Paulo: Valéria Paschoal Editora Ltda., 2018. P. 163 – 167;234-235.

SOUZA, José Rogério de Jesus Linhares de; SILVA, Tatyana Santana de Azevedo  e  FIGUEREDO, Eduardo Durans. Hipovitaminose D na gestação: um problema de saúde pública?. Rev. Bras. Saude Mater. Infant. [online]. 2019, vol.19, n.1, pp.197-205. ISSN 1519-3829.  http://dx.doi.org/10.1590/1806-93042019000100011.

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